domingo, 31 de março de 2013

Um prato que se come frio


Nuances da vingança marcam o cinema cru e caótico de Quentin Tarantino desde Pulp Fiction, por Renan Machado

Duas louras bonitas: uma delas, judia, esconde-se num cinema à luz do dia, em Paris, como francesa legal nos idos da Segunda Guerra; a outra, assassina de aluguel aposentada, dirige uma picape cafona pelos EUA anos após sobreviver à tentativa de homicídio praticada por antigos parceiros. Dois exemplos, separados pelo Atlântico, e aproximados por Quentin Tarantino em torno de uma temática comum: a vingança.
Seja Shosanna, personagem de Bastardos Inglórios que vinga a morte da família judia ao incendiar o cinema de sua propriedade durante uma sessão nazista, ou Beatrix Kiddo, protagonista da sequência Kill Bill, obcecada em eliminar o ex-cônjuge e comparsa por condena-la com um tiro na cabeça. Ambas vivem a trama em busca de vendeta. Os filmes são obras de Quentin Tarantino, diretor cinematográfico nascido no Kentucky que, desde os primórdios da carreira, aborda o tema com afinco.
Tarantino começou a filmar nos anos 90. Uma de suas primeiras produções, Pulp Fiction, de 1994, apresenta pitadas de vingança. Marsellus Wallace, personagem primário que representa um chefão do crime, vinga-se de personagens secundários em duas situações durante o filme. A primeira: reza a lenda que um capanga de Wallace fez massagem nos pés da esposa do chefão, Mia, a pedido da mesma. Wallace teria arremessado o infeliz serviçal pela janela. Em um segundo momento, envolve-se em uma situação constrangedora com um oficial da lei de conduta questionável. A vendeta pessoal de Wallace não foi mostrada nas telonas a fim de preservar a moral e os bons costumes.
Os anos se passaram e Tarantino seguiu estampando o selo vingativo em suas produções. Independente dos motivos que levam o diretor à recorrência, na vida real, como o sentimento de vingança é vista na sociedade? Segundo a psicóloga Fernanda Cidral, a manifestação da vingança depende da carga emocional que o indivíduo carrega consigo após passar por uma situação, de alguma forma, traumática. “A vingança é um comportamento evidenciado por uma pessoa que se sente ofendida, por exemplo. A violência é uma resposta comum nesse caso”, afirma.
Para Fernanda, as motivações que geram vingança dependem do indivíduo e de sua respectiva personalidade. Porém, com gancho em Kill Bill, a psicóloga diz ser um comportamento recorrente na sociedade contemporânea, ainda que a produção seja uma obra de ficção. “Em uma relação, seja de amizade ou relacionamento afetivo, existe uma construção de subjetividade. Quando esse elo é desfeito, é natural que a mágoa, ódio ou manifestações de amor rebuscadas apresentem características de vingança, como uma forma de rebater o dano emocional causado pela outra pessoa”, atesta.
No universo exterior ao ponto de vista médico e especializado em cinema, o apreço de Tarantino por situações de vingança é, também, constatado. Marcelo Santos, dj de casas noturnas, é um grande fã do cinema feito pelo diretor. “Já assisti tudo dele (Tarantino). Bastardo Inglórios eu vi mais de dez vezes”, diz. De acordo com Santos, a recorrência, ainda que presente em Pulp Fiction, fica mais evidente a partir de Jackie Brow. “Particularmente vejo mais vingança a partir de Jackie Brow, mas isso é uma questão de olhar clínico”.
Quanto a Kill Bill e Bastardos Inglórios, Santos afirma dispensar comentários técnicos. “São duas obras de gênio, com tom de descontração apesar da tragédia”, afirma. Por outro lado, ressalta a temática da vingança como mais marcante nas duas produções em questão de Tarantino. “Ainda que pinceladas, aqui e ali, já revelassem essa característica de enredo do Tarantino, é em Kill Bill e Bastardos Inglórios que existem personagens dedicados à vingança durante todo desenrolar do filme”, completa.

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