Nuances
da vingança marcam o cinema cru e caótico de Quentin Tarantino desde Pulp
Fiction, por Renan Machado
Duas louras bonitas:
uma delas, judia, esconde-se num cinema à luz do dia, em Paris, como francesa
legal nos idos da Segunda Guerra; a outra, assassina de aluguel aposentada,
dirige uma picape cafona pelos EUA anos após sobreviver à tentativa de
homicídio praticada por antigos parceiros. Dois exemplos, separados pelo
Atlântico, e aproximados por Quentin Tarantino em torno de uma temática comum:
a vingança.
Seja Shosanna,
personagem de Bastardos Inglórios que
vinga a morte da família judia ao incendiar o cinema de sua propriedade durante
uma sessão nazista, ou Beatrix Kiddo, protagonista da sequência Kill Bill, obcecada em eliminar o ex-cônjuge
e comparsa por condena-la com um tiro na cabeça. Ambas vivem a trama em busca
de vendeta. Os filmes são obras de Quentin Tarantino, diretor cinematográfico
nascido no Kentucky que, desde os primórdios da carreira, aborda o tema com
afinco.
Tarantino começou a
filmar nos anos 90. Uma de suas primeiras produções, Pulp Fiction, de 1994, apresenta pitadas de vingança. Marsellus
Wallace, personagem primário que representa um chefão do crime, vinga-se de
personagens secundários em duas situações durante o filme. A primeira: reza a
lenda que um capanga de Wallace fez massagem nos pés da esposa do chefão, Mia,
a pedido da mesma. Wallace teria arremessado o infeliz serviçal pela janela. Em
um segundo momento, envolve-se em uma situação constrangedora com um oficial da
lei de conduta questionável. A vendeta pessoal de Wallace não foi mostrada nas
telonas a fim de preservar a moral e os bons costumes.
Os anos se passaram e
Tarantino seguiu estampando o selo vingativo em suas produções. Independente
dos motivos que levam o diretor à recorrência, na vida real, como o sentimento
de vingança é vista na sociedade? Segundo a psicóloga Fernanda Cidral, a
manifestação da vingança depende da carga emocional que o indivíduo carrega
consigo após passar por uma situação, de alguma forma, traumática. “A vingança
é um comportamento evidenciado por uma pessoa que se sente ofendida, por
exemplo. A violência é uma resposta comum nesse caso”, afirma.
Para Fernanda, as
motivações que geram vingança dependem do indivíduo e de sua respectiva
personalidade. Porém, com gancho em Kill
Bill, a psicóloga diz ser um comportamento recorrente na sociedade
contemporânea, ainda que a produção seja uma obra de ficção. “Em uma relação,
seja de amizade ou relacionamento afetivo, existe uma construção de
subjetividade. Quando esse elo é desfeito, é natural que a mágoa, ódio ou
manifestações de amor rebuscadas apresentem características de vingança, como
uma forma de rebater o dano emocional causado pela outra pessoa”, atesta.
No universo exterior ao
ponto de vista médico e especializado em cinema, o apreço de Tarantino por
situações de vingança é, também, constatado. Marcelo Santos, dj de casas
noturnas, é um grande fã do cinema feito pelo diretor. “Já assisti tudo dele
(Tarantino). Bastardo Inglórios eu vi
mais de dez vezes”, diz. De acordo com Santos, a recorrência, ainda que
presente em Pulp Fiction, fica mais
evidente a partir de Jackie Brow.
“Particularmente vejo mais vingança a partir de Jackie Brow, mas isso é uma questão de olhar clínico”.
Quanto a Kill Bill e Bastardos Inglórios, Santos afirma dispensar comentários técnicos.
“São duas obras de gênio, com tom de descontração apesar da tragédia”, afirma.
Por outro lado, ressalta a temática da vingança como mais marcante nas duas
produções em questão de Tarantino. “Ainda que pinceladas, aqui e ali, já
revelassem essa característica de enredo do Tarantino, é em Kill Bill e Bastardos Inglórios que existem personagens dedicados à vingança
durante todo desenrolar do filme”, completa.
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